Portugal tem dois lagostins de água doce — e quem chegou primeiro está a ser eliminado por quem chegou depois.
O lagostim-de-rio nativo, Austropotamobius pallipes, habitou
os rios e os ribeiros portugueses durante milhões de anos. É menor do que o
lagostim-vermelho americano, tem crescimento mais lento e é significativamente
mais exigente em termos de qualidade da água — uma desvantagem competitiva
quando o rival tolera água poluída e temperaturas mais altas.
O lagostim-vermelho — Procambarus clarkii — foi introduzido
em Portugal nos anos 1970 para aquacultura, com a intenção de criar uma fonte
de proteína adicional nos arrozais. Escapou rapidamente para os cursos de água
naturais e em décadas colonizou praticamente todos os sistemas hidrográficos do
país.
A competição directa é apenas parte do problema. O
lagostim-vermelho é portador de Aphanomyces astaci — o fungo causador da
afanomicose — a que desenvolveu resistência ao longo de décadas de co-evolução
com o patogénio na América do Norte. O lagostim nativo europeu não tem esta
resistência: o contacto com o fungo, transmitido pela água, é invariavelmente
fatal.
O lagostim nativo está hoje criticamente ameaçado em
Portugal, com populações viáveis limitadas a algumas bacias hidrográficas do
Norte interior onde o lagostim-vermelho ainda não chegou ou onde as condições
são suficientemente frias para limitar a sua expansão.
O lagostim que toda a gente come nas tasquinhas é o invasor.
O que estava cá primeiro desaparece em silêncio dos rios.

