29 agosto 2026

Os lagostins de água doce em Portugal

Portugal tem dois lagostins de água doce — e quem chegou primeiro está a ser eliminado por quem chegou depois.

O lagostim-de-rio nativo, Austropotamobius pallipes, habitou os rios e os ribeiros portugueses durante milhões de anos. É menor do que o lagostim-vermelho americano, tem crescimento mais lento e é significativamente mais exigente em termos de qualidade da água — uma desvantagem competitiva quando o rival tolera água poluída e temperaturas mais altas.

O lagostim-vermelho — Procambarus clarkii — foi introduzido em Portugal nos anos 1970 para aquacultura, com a intenção de criar uma fonte de proteína adicional nos arrozais. Escapou rapidamente para os cursos de água naturais e em décadas colonizou praticamente todos os sistemas hidrográficos do país.



A competição directa é apenas parte do problema. O lagostim-vermelho é portador de Aphanomyces astaci — o fungo causador da afanomicose — a que desenvolveu resistência ao longo de décadas de co-evolução com o patogénio na América do Norte. O lagostim nativo europeu não tem esta resistência: o contacto com o fungo, transmitido pela água, é invariavelmente fatal.

O lagostim nativo está hoje criticamente ameaçado em Portugal, com populações viáveis limitadas a algumas bacias hidrográficas do Norte interior onde o lagostim-vermelho ainda não chegou ou onde as condições são suficientemente frias para limitar a sua expansão.

O lagostim que toda a gente come nas tasquinhas é o invasor. O que estava cá primeiro desaparece em silêncio dos rios.

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